O que ninguém te contou sobre amamentação

Meu objetivo com esse texto, sendo psicóloga, é sair desse discurso do senso comum de dualidade de “certo e “errado” para ampliar o olhar para essa mulher e reforçar a certeza de que somos um ser integral, nem só biológico, nem só psicológico, nem só social.

Você e eu sabemos que o aleitamento materno tem diversos benefícios e que é o ideal para o bebê. Reduz a mortalidade infantil, infecções, protege contra alergias e estimula o vínculo entre a mãe e o recém-nascido. Mas você sabia que apesar de tantos benefícios, pesquisas indicam que apenas 40% das crianças no mundo recebem amamentação exclusiva no início da vida? (Unicef) E por que, mesmo havendo campanhas, tendo mais acesso à informação, esse índice ainda é tão baixo?

Porque apesar da amamentação ser considerada uma prática natural, ela é atravessada por muitas questões, que não andam sendo consideradas, inclusive nessas campanhas. A amamentação é determinada biologicamente, mas também emocional e culturalmente.

Amamentar é uma decisão da mãe que envolve:

– Sua história de vida: Noto que a experiencia da mãe da mãe, tem um impacto direto nas crenças e expectativas das mulheres com respeito a amamentação. Algumas ouviram das próprias mães que foi uma experiência maravilhosa, outras que foi difícil, que machucou, que o leite não sustentou, que não conseguiu. Essas informações que passaram a vida ouvindo, mais as experiências de outras pessoas significativas, mais o que se diz sobre o assunto culturalmente, vão fazendo essa mulher construir crenças que influenciam de forma direta seu comportamento com respeito a amamentação.

– Apoio: O apoio de profissionais no processo da amamentação é fundamental, pode fazer toda a diferença se ela conseguirá ou não amamentar. Ter informação anterior ao processo não é suficiente, pois podem surgir muitas dúvidas e situações não esperadas. 

– Condições físicas e emocionais dela e do bebê: Dependendo do estado de saúde da mãe, pode ser que a amamentação não seja recomendada. Seja pelo risco de passar algum tipo de doença para o bebê ou pelo uso de medicações necessárias.

– O valor social que é dado a amamentação: Como já citei, o olhar cultural para a amamentação também influencia muito essa decisão. Sabemos que nem sempre o aleitamento materno foi algo valorizado e estimulado como vem sendo hoje. No livro de Elizabeth Badinter, “O mito do amor materno”, demonstra que houve uma época em que amamentar era considerado algo irrelevante. Já que os bebês eram amamentados por amas de leite. Isso começa a mudar por uma questão social e econômica. Quando a mortalidade infantil começa a aumentar e impactar a economia é que começam a difundir a amamentação como algo valoroso.

– Questões psicológicas: São inúmeros motivos psicológicos e emocionais que podem impedir ou dificultar uma mulher de amamentar. Infelizmente, ainda hoje as questões ditas psicológicas, não só no que diz respeito a amamentação são vistas como “frescura” e com uma série de outros julgamentos. Muitas mulheres têm dificuldade de amamentar por vergonha, por não ter uma relação saudável com o próprio corpo, por receio das mudanças corporais que a amamentação pode trazer, por ter vivido abuso sexual. E como psicóloga e mãe, não considero nada disso frescura. Para cuidar dessas questões, precisamos aceitar que elas existem e que causam muito sofrimento a muitas mulheres.

Além disso, algo que noto ser muito comum são casos em que as mulheres não conseguem separar a maternidade da sexualidade. Vivem conflitos inconscientes no processo de amamentação. Não conseguem atribuir ao seio uma outra função a não ser a sexual. Amamentar para essa mulher é algo insuportável, porque associam a sucção do bebê, a exposição do seio, a uma estimulação erótica.

E a isso podemos atribuir a nossa cultura, já que aprendemos a associar a maternidade sempre com pureza e santidade. Como se, ao nos tornarmos mães, deixássemos de sermos mulheres.

São muitas as questões que envolvem a amamentação quando olhamos de uma forma ampla e cuidadosa. As campanhas generalistas que vejo hoje, só reforçam ainda mais o sofrimento das mães, que se culpam por “não conseguirem” realizar algo dito tão natural e ainda se sentem responsáveis pelas possíveis consequências que isso pode gerar para seus filhos.

 Além de consequências para saúde física, essas campanhas enfatizam o aleitamento materno como fundamental para a construção do vínculo mãe/bebê. E te convido a ampliar também essa questão. Winnicott, um teórico importantíssimo que pesquisou o vínculo mãe/bebê fala que a amamentação é sim uma via privilegiada para a construção desse vínculo, porque o aleitamento materno, o contato corporal com a mãe, se aproxima muito da necessidade do bebê da continuidade uterina (teoria exterogestação). Mas note, ele disse que essa é uma via privilegiada, não a única. Em seus estudos, ele observou que algumas mães mesmo sendo zelosas e cuidadosas tinham dificuldades com a amamentação. 

A qualidade do vínculo acontece para além do peito, em alguns casos, quando amamentar é algo muito difícil para a mãe, o vínculo pode ficar mais comprometido, do que se ela optar por não amamentar. Segurar, tocar manipular, o olho no olho pode ser mais facilitador da intimidade entre mãe e bebê, do que em casos que essa mãe se sente obrigada a fazer isso.

Meu compromisso é acompanhar mães, levando em conta sua singularidade e suas possibilidades, porque sendo mães, tudo que menos precisamos é de mais geradores de culpa.

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